27/05/2009

FREEPORTES HÁ MUITOS, SEUS PALERMAS!

Um grupo de 23 alemães endinheirados propôs que as pessoas com um rendimento anual superior a 500 mil euros paguem, neste e no próximo ano, um imposto extra de 5%. Não é grande oferta, especialmente porque limitada no tempo, mas vai, apesar disso, em sentido contrário ao que os patos-bravos cá do sítio defendem. Realmente, por aqui é precisamente o inverso: de Vítor Constâncio a Belmiro de Azevedo, de Silva Lopes a Américo Amorim, de qualquer ex-ministro das finanças ao presidente das associações patronais, um tal Francisco van Zeller, todos defendem, com a concordância operacional do governo, a manutenção dos seus privilégios, e que paguem a crise aqueles que trabalham. Acima de tudo, defendem a contenção – ou, até, a redução – salarial para a generalidade dos trabalhadores, salvo para eles próprios e para as suas respectivas seitas. A recente tentativa, atrapalhadamente sustida, de os administradores glutões do Banco de Portugal se voltarem a aumentar, é prova dessa mentalidade imoral.

Posso garantir, com a autoridade que a minha experiência de vida me dá, a par da excelente memória que tenho, que neste regime – de democrata e republicano enganosamente chamado – tal como no regime anterior, de Salazar e Marcelo, se pensa e se age, em termos de políticas económicas e sociais, exactamente da mesma maneira. Nesse aspecto, como em quase todos os outros, nada mudou. Ou melhor. Tudo está a voltar, aceleradamente, ao mesmo. E se quisesse acrescentar que hoje se fecham escolas e serviços de saúde onde antigamente se abriam, poderia fazê-lo sem correr o risco de me chamarem aldrabão ou coisa pior.

Digo – repetindo o que tenho dito noutras ocasiões – que nada distingue, em termos de governação da coisa pública, estes democratas dos outros ditadores. Sempre se pediram sacrifícios ao povo, fosse por causa da crise existente, fosse para pagar os custos de uma crise passada, fosse para evitar uma crise futura. Uma receita velha e gasta, mas sempre eficazmente mantida e aplicada, seja pela força do bastão, seja pela manipulação habilidosa das consciências, seja por acéfalas submissões partidárias.

Vivemos perdidos no meio de um círculo vicioso que urge romper, se queremos, como é próprio de uma verdadeira democracia e de um regime republicano, ser donos do nosso próprio destino. Devemos perceber que não é só pelo voto que lá vamos. É pela intervenção cívica e cidadã, é pela afirmação pública e permanente dos nossos direitos e garantias, é pela exigência da aplicação prática e efectiva das disposições constitucionais, é pela indignação publicamente manifestada, é pela denúncia dos desmandos praticados a todos os níveis do poder, é pela capacidade de afrontarmos, de todas as formas, um sistema onde se encavalitou uma corja de oportunistas, corruptos, parasitas e outros estafermos, todos agarrados às tetas de uma porca, que outra coisa já não é a política dos nossos tempos.

O que estou a dizer é que o poder político, nos dias que correm, está tão distanciado das populações – e contra elas tão virado – como o estava antes do 25 de Abril. Do alto do seu poder, conferido pelo voto, os políticos não cuidam de servir as populações, mas de manter o cargo e, através dele, servirem-se, servirem a força política em que se estribaram (para não perderem a confiança política), cuidarem do seu futuro e, periodicamente, em épocas que antecedem os períodos eleitorais, tratarem de descer até à ralé, sem gravata e com ar desportivo, para impingirem as mesmas tretas que impingiram há quatro anos atrás. E toca a andar, que já enganámos mais estes…

Na maior parte dos casos – porque há, aqui ou ali, honrosas excepções – suas excelências incharam com o poder recebido e já se imaginam seres soberanos e inquestionáveis. Porque podem decidir, utilizam os cargos para distribuir benesses nos colos convenientes, compram cumplicidades, traficam influências, subornam e corrompem. As populações e os seus interesses deixaram de ser uma preocupação, mas apenas um pretexto e um meio para se decidirem negócios e negociatas, onde os diferentes clãs se amanham e sequiosamente se abastecem. E para melhor o fazerem – e só por isso – se acotovelam e insultam.

Há dias, pessoa amiga perguntava-me se eu não estranhava que num escândalo tão grande, como é o caso do Freeport, os partidos políticos se mantivessem tão discretos, tão cautelosos, tão pouco agressivos e exigentes na descoberta da verdade. Respondi-lhe que não, que não estranhava. No fundo, em maior ou menor escala, Freeportes é o que por aí mais há. Nenhum, que se saiba, com tão grandes dimensões como o de Alcochete, mas tudo é negociável e sujeito a um convite à lubrificação de uns quanto por cento. Do mero estaleiro de construção civil, permitido em terreno agrícola, ao famoso empreendimento inglês, passando por grandes urbanizações, em tudo se estabelece um toma-lá-dá-cá desavergonhado, onde, em boa verdade, se esbatem as diferenças ideológicas, os valores a ética e a honra.

Como referi na crónica anterior, passam-se coisas, em Portugal (sem que ninguém se demita, seja demitido ou vá preso), que têm, em qualquer país da Europa, consequências bem diferentes.

Dois exemplos:

O primeiro-ministro belga, Yves Leterme, propôs, em 19 de Dezembro do ano passado, a demissão de todo o Governo, na sequência de acusações de alegadas (alegadas, note-se!) pressões sobre a justiça. Leterme negou qualquer pressão sobre o poder judiciário, mas admitiu ter feito «contactos»;

Michael Martin, presidente da Câmara dos Comuns, anunciou em 19 de Maio, a demissão, após acusações de alegadamente (alegadamente, também, note-se) ter consentido alegados (só alegados) abusos nas despesas de representação de alguns deputados; e dois membros da Câmara dos Lordes foram suspensos por, alegadamente (só alegadamente, volte a notar-se), terem aceitado dinheiro para votar projectos de lei.

Nenhum deles tinha sido (note-se de novo) condenado por sentença transitada em julgado, e mesmo assim (abra-se a boca de pasmo), tiraram consequências políticas de alegações fundamentadas que os visavam. Então e aquela coisa da “presunção de inocência”, que, cá no burgo, é tão útil – e utilizada? Serão as democracias belga e inglesa que têm muito a aprender com a nossa, ou falta-lhes comer, como dizia o outro, muita papa Maizena para chegarem aos calcanhares da democracia portuguesa?

José Saramago escreveu, há dias, que a explicação para o facto de Berlusconi estar no poder, é porque metade de Itália é como ele, e a outra metade gostaria de ser.

Pergunto eu: será que os portugueses já são todos como Sócrates?

Eu não sou. E você?


Lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 27/05/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

20/05/2009

SE…

Se o Apito Dourado fosse em Itália, Pinto da Costa estava preso e o F. C. do Porto teria baixado de divisão.

Se o caso Freeport fosse em Inglaterra, Sócrates estaria a contas com a Justiça e, naturalmente, já não seria primeiro-ministro. E, antes de mais, não haveria uma dama, reconhecidamente conotada com o partido metido na embrulhada, a coordenar todo a investigação. Porque a mulher de César… etc. e tal.

Se Lopes da Mota fosse francês, já não seria presidente do Eurojust e estaria entregue ao poder judicial. Aliás, depois do caso de Felgueiras, em que foi suspeito de ter avisado a dona Fátima da eminência da prisão, nem presidente do Eurojust teria sido.

Se Armando Vara fosse alemão, nunca teria sido ministro e se, por estranho acaso, o tivesse sido, logo após o escabroso caso da Fundação para a Prevenção e Segurança, de inquérito judicial não se livrava. Seguramente, não voltaria à Caixa Geral de Depósitos como director, para logo passar a administrador, ele que era um simples caixa numa remota agência da instituição, quando enveredou pela carreira política, sabendo escolher os colos certos. O de Sócrates foi um deles. Por isso, o sujeito é, nos dias que correm, administrador do principal banco privado português. De onde eu retiraria logo o meu dinheiro, caso o houvesse lá depositado.

Se o caso da licenciatura de Sócrates fosse em Espanha, a coisa não teria morrido à nascença e, garantidamente, a Espanha teria mudado de primeiro-ministro. E a universidade (se àquilo se podia chamar uma universidade…) teria de explicar como licenciou tanto rapaz do PS (Vara, também, por acaso), sem que eles tivessem sido vistos a frequentar normalmente as aulas.

Se o caso dos paquetes alugados para servirem de hotel durante a Expo’98 fosse na Holanda, não estaria em águas de bacalhau.

Se o caso das trafulhices com aterro sanitário da Cova da Beira – e onde o nome de Sócrates aparece mais uma vez mencionado – fosse na Irlanda, já estaria muita gente presa.

Se o caso da Casa Pia fosse na Bélgica, quem mais estaria no banco dos réus?

Se o problema dos licenciamentos fantasmas dos projectos assinados por Sócrates, enquanto técnico autárquico, fosse no Luxemburgo, não teriam sido transformado num monte de anedotas sobre a piroseira projectada, mas seria um autêntico caso de polícia.

Se a farsa do computador Magalhães – e, principalmente, o modo como a sua caricata produção e posterior comercialização foram entregues à rapaziada da família (que até estava a contas com o fisco) – fosse na Áustria, já não havia Magalhães, nem empresa fornecedora, nem governo, nem, consequentemente… tantos erros de ortografia a deseducar as crianças.

Se a serra da Arrábida não tivesse a infelicidade de ser em Portugal, não estaria a ser corroída pelas pedreiras nem a ser envenenada pela teimosia psicopata de um governante – Sócrates, ele mesmo – que garantiu a toda a Europa que a co-incineração nunca seria… no Parque Natural da Arrábida. E já se saberia em quanto as cimenteiras contribuíram para certas campanhas eleitorais…

Se todos os presidentes de câmara fossem obrigados a explicar – e a provar – como aumentaram o seu património, desde que assumiram os destinos dos seus concelhos – e a fazer fé naquilo que tem sido divulgado e, principalmente, por aquilo que ainda falta divulgar… – mais de metade deles prestaria contas à Justiça e teria o fisco à perna.

Se alguém se lembrar de comparar a carreira de dois profissionais, em iguais circunstâncias, sendo que um enveredou pela carreira política e outro se manteve na sua profissão, como explicará que, ao fim de alguns anos, o primeiro, caso tenha sido deputado, ministro ou mero presidente de câmara, apresente um património e quadro de rendimentos infinitamente superior àquele que se manteve na profissão?

Se um dia, em qualquer país da Europa, um ministro da Justiça parisse leis que deixassem o país entregue à bicharada, apenas para salvar os criminosos de colarinho branco que por aí proliferam – bem lavados, de resto, nas suas cascatas de offshores – e atenuar, ao mesmo tempo, os crimes do bando de pedófilos que estão a braços com a lei, certamente que logo deixaria de ser ministro, porque, naturalmente, o governo deixaria de ser governo.

Se em qualquer país da Europa se pagasse imposto sobre os rendimentos de trabalho, mais IVA sobre tudo o que se compra, mais um imposto sobre o lixo, outro sobre os esgotos, ainda outro sobre as infra-estruturas urbanísticas, um outro sobre a casa que se comprou, mais outro disfarçado de contribuição para o audiovisual, mais outro ainda vestido de taxa de exploração para a DGGE (que sabe-se lá o que será), mais taxas moderadoras quando se vai aos serviços públicos de saúde, mais propinas quando se quer estudar, mais portagens em tudo o que for parecido com uma auto-estrada, mais transportes públicos caros e maus, bem, se tudo isto acontecesse em qualquer país desta Europa connosco, já teria acontecido por lá algo semelhante a uma nova Revolução Francesa. Ou ainda melhor.

Se… se… se…

E se não fôssemos um triste e sebento rebanho de carneiros, o que é que gostaríamos de ser?


Lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 20/05/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

13/05/2009

CRIMES E CRIMINOSOS

Costumo utilizar, com frequência, um pensamento engraçado, que adquiri já nem sei onde, nem quando: diz ele, o pensamento, que um pessimista é, apenas, um optimista bem informado. Adaptando isso à nossa realidade, conclui-se que uma pessoa lúcida e atenta aos dias que correm, não pode, de forma alguma, ser optimista. Aviso já as mentes perversas que não estou a falar em derrotismo, mas a apelar ao realismo. Ou seja: vêm aí tempos ainda piores.

Olhando à minha volta – e centrando-me, apenas, na realidade que nos envolve – percebo que a crise veio para ficar. Não porque a crise seja uma coisa com vontade própria, um instrumento divino para castigar os homens, ou uma consequência de forças naturais. Claro que não. A crise explica-se pela intervenção dos homens. E, neste mundo, os homens que fazem, refazem e desfazem as crises são aqueles que têm poder para isso. O poder de fazer leis, o poder de mandar na economia, enfim, o poder de decisão sobre a vida de milhões e milhões de pessoas.

Porque não vale a penas falarmos da crise global, falemos da crise que nos afecta, já que ela tem, em si própria, todos os ingredientes da crise mundial. Li, no sítio da Internet www.resistir.info, sob o título PAÍS A SAQUE E A CAMINHO DA RUÍNA, que «a depressão económica que agora se inicia no mundo capitalista, pode ser agravada ou amenizada pelas políticas dos governos nacionais. No caso português, o governo do senhor Sócrates, parece apostado em agravá-la ao máximo. Fecham empresas todas as semanas, aumenta o desemprego, os défices tornam-se assustadores, a dívida externa agrava-se a níveis monstruosos, mas ele permanece impávido nos seus projectos ruinosos – como o novo aeroporto, TGV, terceira ponte sobre o Tejo, o super-hospital de Todos os Santos, etc, etc. Enquanto isso, as universidades vivem à míngua, maternidades e centros de saúde são encerrados, as pensões de reforma são uma miséria, a repartição do rendimento é a pior de todos os países da Europa (a do Leste inclusive).

O custo do novo aeroporto está agora orçamentado em 5 mil milhões de euros. E, como toda a gente sabe, os orçamentos têm o hábito de fazer derrapagens da ordem dos 40, 50 ou mais por cento. Ao mesmo tempo, este governo autista e de lesa economia nacional ignora deliberadamente a realidade do Pico Petrolífero. Como se os preços momentaneamente baixos do barril – devido, em parte, à recessão económica – pudessem perdurar para sempre (o banqueiro M. Simmons prevê uma alta significativa dentro de seis a nove meses). E mesmo com os actuais preços baixos do barril, a TAP acaba de anunciar que foi obrigada a cancelar 2400 voos no 2.º semestre de 2009. Hoje, até mesmo altos dirigentes de companhias de petróleo recomendam "poupar, poupar, poupar" . Mas os governos, ao serviço dos grandes empreiteiros, fazem orelhas moucas.

Quem porá cobro a isto?», pergunta o autor do texto.

A única resposta que me ocorre é esta: só nós podemos pôr cobro a isto. Nós, a maioria, os nove milhões e muitas centenas de milhares que nos deixamos governar assim. É preciso recuperar a ideia democrática de que não são as pessoas que deverão estar ao serviço dos partidos, dos políticos, dos empresários e da economia, mas precisamente o contrário. Não podemos consentir que meia dúzia de senhores, encaixados nos partidos políticos – onde fazem carreiras de luxo – ou grandes empresários, surripiadores e sanguessugas – que vivem como nababos à nossa custa – decidam do nosso destino, como se isso fosse uma telúrica e inevitável fatalidade. Esta sociedade, dita democrática, está montada ao contrário. Compete-nos, a nós, endireitá-la.

Como reflexo deste estado de coisas, tudo se esboroa e estratifica. Perdem-se os valores, institui-se a lei da selva, recorre-se ao salve-se quem puder. É uma espécie de cada um por si… e tudo ao monte. Neste ambiente degradado e degradante, surgem fenómenos como aqueles de que Setúbal, nos dias que correm, é um triste exemplo.

Embora eu não seja dos que alinham na tese de que tudo radica em causas sociais, desculpabilizando os criminosos e ignorando que é no temperamento de cada um que se encontram as principais explicações para se enveredar – ou não – pelos caminhos do crime, não posso deixar de reconhecer que as grandes injustiças sociais de que somos vítimas – todos, e não só os ladrões e assassinos – escancaram as portas à criminalidade e oferecem-lhe estímulos e justificações para soltarem os seus instintos e má formação.

Uma sociedade justa, equilibrada, límpida e rigorosa não é terreno fértil para a bagunça que por aí alastra. Ao invés, uma sociedade onde as desigualdades sociais todos os dias se acentuam, crescendo, em pólos opostos, os condomínios de luxo e os guetos como os de Setúbal, e os senhores do mando não são pessoas imaculadas nem, sequer, respeitáveis, essa sociedade propicia toda a série de desmandos a que hoje assistimos.

Mas recordo, principalmente aos peregrinos da desculpabilização, que as mesmas causas não produzem os mesmos efeitos em todas as pessoas. Se assim fosse, em vez de duzentos ou trezentos marginais, praticamente todo o bairro da Bela Vista seria um coito de criminosos, o que não é verdade. Mas já é verdade que, numa mesma família, sujeita às mesmas dificuldades, haja gente de bem e gente de mal. No fundo, o temperamento, que é inato em cada um de nós, determina o nosso comportamento. As circunstâncias, depois, fazem o resto.

Aqui chegados, vão-me perguntar, afinal, como penso que a sociedade deve lidar com a chamada marginalidade. Só tenho uma resposta: sem dó nem piedade. Mas note-se uma coisa importante: eu não limito o conceito de marginalidade aos casos que conhecemos dos bairros ditos problemáticos, como os da Bela Vista ou Cova da Moura. Criminosos não são, apenas, os assaltantes de bancos, de carrinhas de valores ou de tabaco, de ourivesarias ou supermercados. Os javardos do carjacking não são mais javardos do que aqueles que assaltam os bancos a partir dos respectivos conselhos de administração, ou os políticos corruptos, que arrecadam milhões à conta das obras públicas e respectivas derrapagens, ou para facilitar este ou aquele empreendimento.

Um pedófilo repugnante não é apenas o que se chama Bibi, mas também o senhor doutor que tem assento em importantes cadeirões cá da lixeira, e que recebia, num dos seus apartamentos, «sobrinhos» e «afilhados» aos magotes. Crime de peculato não o pratica só aquele que, à margem da lei, se aproveita de dinheiros públicos confiados à sua guarda, mas também – e principalmente – aqueles que, podendo produzir as leis, as fazem para, por caminhos transformados em legais, do mesmo dinheiro público se aproveitarem e dele se encherem.

Por isso, aqui o digo sem medo ou hesitação: para todos os criminosos, de colarinho preto, enxovalhado ou branco, a mão pesada e severa da lei, com todo o seu rigor.

E já que estamos com a mão na massa: o inquérito requerido pelo Conselho Superior do Ministério Público concluiu que o presidente do Eurojust, o socialista e amigo de Sócrates, Lopes da Mota, pressionou mesmo os procuradores que investigam o caso Freeport.

E, por hoje, já chega de crimes e criminosos. E javardices semelhantes.


Lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 13/05/2009.
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06/05/2009

OS MILAGRES DO SANTO CONTESTÁVEL

Nos últimos dias, dois factos mereceram particular destaque nos órgãos de comunicação social.

O primeiro facto, foi a promoção, de beato a santo, de D. Nuno Álvares Pereira, já há muito chamado de Santo Condestável. Não sei se D. Nuno foi santo – ou se apenas agora o é. Confesso que não me interessa. Não são contas do meu rosário – que, por acaso, nem tenho. Que se divirtam muito todos os santos, mais suas santidades, no seu etéreo e improvável reino dos céus. E passem muito bem.

Descendo à terra, onde a fome e a guerra dão cartas (até parecendo que, lá nas alturas, andam deuses e santos muito distraídos), lembrei-me que, por cá, nos dias que correm, voltámos a ter um santo em actividade: D. Sócrates, também designado, pelo povo mendicante, como o Santo Contestável. Como o povo, apesar da míngua, é sempre um grande poeta, já há por aí quem rime contestável com detestável, irritável, comprável, execrável e, finalmente, descartável. E está tudo a ser muito amável…

Este santo, de cujas virtudes nenhum capitalista descrê, tem produzido por aí milagres de pasmar. Um deles, foi fazer desaparecer mais de 250 mil postos de trabalho. Cem mil que desapareceram desde que subiu ao altar, e mais 150 mil que prometeu criar e ninguém sabe onde estão. Outro milagre digno de registo, foi licenciar-se em engenharia sem que ninguém soubesse como nem porquê, mas o mais provável é ter sido fecundado pelo Espírito Santo com todo o saber necessário, razão pela qual até o diploma foi passado ao domingo, dia santo por natureza.

Tão santo é, que transforma os nossos impostos em dádivas aos bancos falidos e fez de um ignorante campónio, ex-caixa bancário, administrador do maior banco privado português. Mas os milagres não se ficam por aqui. Há tempos, conseguiu salvar da ruína uma empresa falida e a contas com o fisco, bastando, para tal que, por inspiração divina – por si, naturalmente, canalizada – os seus confrades vestissem de azul celeste um pequeno computador da Intel, e lhe chamassem Magalhães. Aparvalhado – ou seja: maravilhado – Portugal abriu os olhos de espanto e engoliu a caixa azul sem pestanejar. E ninguém foi preso. Por milagre também, certamente.

Famosos são, também, os milagres da Cova da Beira, onde o negócio do ambiente floresce, enquanto o ambiente, propriamente dito, falece. Ligado a estes milagres está um outro, que impede os tribunais de decidirem sobre as multiplicações das contas bancárias que (tal como Cristo fez com os pães) surgem gordas e repolhudas, não se sabe de onde.

Mas talvez o milagre maior seja o já famoso milagre de Alcochete, que transformou uma zona natural protegida num brilhante espaço comercial, e tudo enquanto o Diabo (salvo seja, cruzes, te arrenego, que estamos a falar de obra do Senhor e dos seus santos!) esfregava um olho. A par deste milagre, anda por aí um outro, ainda a ser investigado pelas autoridades, que se prende com o desaparecimento de 4 milhões de euros, que levaram sumiço mal caíram na caixa das esmolas.

E aqui estamos nós, como outrora, nas mãos de um santo, como o foram o Condestável e os dois Antónios, o que dava cabo das bilhas das moças, ali para os lados da Sé, e o outro, o santo António da Calçada, que dava cabo do coiro a quem não lesse pela sua cartilha.

Segundo facto:

Veio agora São Sócrates, o Contestável – ou, se preferirem, o Detestável – insurgir-se contra o facto de a GCTP e o PCP não pedirem desculpas pelo facto de uns quantos infiéis terem insultado um seu beato, de nome Vital, que apareceu no Martim Moniz para ali abençoar os que, no dia 1.º de Maio, se manifestavam contra o governo.

Parece não saber o Contestável e Detestável homem, que Vital desertou, um dia, do lado daqueles a quem queria agora abençoar, traindo e renegando os valores e ideais que jurava, então, a pés juntos serem os seus. Há quem diga que, em boa verdade, não era uma questão de ideais, mas de lugar no varandim, supondo-se, já então, com direito a sentar-se à direita daquele a quem ambicionava, em breve, substituir. Seja como for, Vital pôs-se a jeito para o martírio, com aquela malícia beata que tem pouco de santo e muito de perverso. Afinal, um lugarzinho no altar europeu, com esmolas fartas e sinecuras convenientes, sempre valia o risco.

Ao fim e ao cabo, o beato Vital prestou-se, para agradar ao Santo Contestável, a fazer o mesmo que um membro da Juve Leo faria se fosse, equipado a rigor, meter-se no meio da rapaziada dos No Name Boys, ou vice-versa. Por isso, de desculpas não precisa, mas, apenas, que lhe reconheçam o frete, ali na Santa Sé do Largo do Rato. Há que beijar os pés a quem nos dá a mão.

Sobre desculpas, andam por aí umas vozes, nada santas, a resmungar blasfémias contra o Detestável e, cada vez mais, Contestável santo, porque ele não só não cumpriu um sem fim de promessas, como ainda lhes retirou aquilo que tinham nos seus parcos baús.

Muitos oraram, há quase quatro anos, no altar de São Sócrates, e hoje estão desempregados, ou em vias disso. Outros, perderam a casa, porque deixaram de a poder pagar. Outros, não conseguem, sequer, arranjar um emprego. Outros, querem ter filhos, mas têm medo da vida, do amanhã. Outros, eram remediados e, hoje em dia, são pobres. As grávidas começaram a parir nas bermas das estradas, nas macas das ambulâncias ou no chão da garagem; outras, vão parir a Espanha. Os doentes morrem às portas de urgências encerradas. Há crianças que palmilham quilómetros até à escola, onde as esperam horas de frio ou calor abrasador, conforme o tempo que faz. Há quem não avie o medicamento necessário, porque a pensão não chega para esses luxos. Entretanto, a Ordem do Santo Execrável nada em abastança e nada falta aos seus acólitos.

Por isso, o rebanho começa a balir protestos ou, no caso dos mais beatos, a engolir em seco. Falta a erva no pasto, mas os membros da Ordem enfardam como gente grande. Quem nos pede desculpas pelo desemprego e pela penúria? E pelos despejos? E por todas as aflições que antes não havia e agora há? E por muitos terem acreditado no santo e, com as suas orações, o terem colocado no pedestal? Quem nos pede desculpas por todos os embustes dos últimos quatro anos? E por tantos sermões enganosos?

Não sou homem de religiões. Por isso, não sou homem de orações. Mas sou um homem de fé. Acredito que as pessoas, as sociedades, têm a capacidade de construir um mundo à medida das suas aspirações e desejos. Basta, para tanto, que se libertem dos que os condicionam e instituem paradigmas que aprisionam mais do que prisões. Que não dêem o poder a quem não está do seu lado.

Esta é, como todas as outras, uma crónica de esperança num futuro sem crápulas, sem corruptos, sem oportunistas. Sem intrujões. É dizer, à minha maneira, que «O que faz falta é avisar a malta!».


Lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 06/05/2009.
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03/05/2009

FASCISMO COM ADOÇANTE

Na semana passada, discutimos aqui o 25 de Abril. Gosto do confronto de ideias, das opiniões diferentes, da defesa de pontos de vista antagónicos. Costuma dizer-se que da discussão nasce a luz, e é bem verdade. O que é preciso é que, nessas discussões, apenas participem pessoas sérias e bem intencionadas, como foi, aliás, o caso. Quando assim é, bendita discussão.

Como se lembram, o que estava em causa não era o 25 de Abril e a sua essência, mas o facto de eu dizer que, embora compreendendo as razões das comemorações e dos festejos, não participava neles por considerar que o que resta do 25 de Abril é o direito de votar e alguma liberdade de expressão. E disse que o direito ao voto e a liberdade de expressão ainda existentes, só existem porque não é conveniente, para o poder económico e para o poder político, mancomunados, acabarem com isso. Mas que bem gostariam de o fazer. E disse mais: disse que não hesitarão em limitar ou anular esses direitos quando sentirem que eles poderão pôr em causa o actual estado de coisas, isto é: colocar a economia ao serviço das pessoas. Disse-o há uma semana, como já o tinha dito há cinco anos.

Assim sendo – e no que a mim respeita – não alinho nos foguetórios, pois o meu espírito – o espírito de quem viveu de corpo inteiro o dia 25 de Abril de 1974 e os tempo de esperança que se lhe seguiram – apenas sente o luto pelo que se perdeu e a necessidade de luta contra este fascismo com adoçante que nos governa. E, meus amigos, porque também me recuso a viver de saudades, daqui não saio.

Não saio, também, por um outro motivo. Já pensaram que os portugueses com menos de 45 anos nada sabem do que representou o 25 de Abril, nem o que foi o regime anterior? Que pensarão eles – que vivem numa democracia falsificada, com contratos a prazo, com desemprego, com salários insuficientes, com a corrupção e a fraude a olear as altas esferas do poder económico e do poder político, com uma Justiça que protege os grandes e é implacável para os pequenos, com mais de dois milhões de portugueses a viver em níveis insustentáveis de pobreza, com fábricas a fechar todos os dias, pondo sem trabalho famílias inteiras – sim, o que pensarão eles que festejamos? Isto, ou o que foi, e eles nunca viveram? Ou o que, em boa verdade, nunca chegou a ser, por nunca ter passado de uma bela promessa, apenas em parte – e porque curto tempo – concretizada?

Como posso eu festejar o 25 de Abril, quando os senhores da governação e do poder económico, tão ou mais descarados do que eram os seus equivalentes de antes do 25 de Abril, se enchem à conta do Estado, reservando para si grandes proveitos imediatos e futuros, mas retirando-os, em nome da crise, a mais de nove milhões de portugueses?

Sabiam que o Instituto de Emprego e Formação Profissional divulgou os números do desemprego, e que, de acordo esses dados, o número de desempregados inscritos atingia, em Março de 2009, 484.131, tendo aumentado, entre Dezembro de 2008 e Março de 2009, 68.131, o que significa um aumento médio mensal de 22.709 desempregados? E que, se este ritmo de aumento mensal se mantiver, no fim de 2009, existirão inscritos nos Centros de Emprego mais 272.504 que, somados aos 416.005 que existiam em 1 de Janeiro de 2009, totalizarão 688.509? E que, mesmo aquele número – 484.131 – não corresponde à totalidade dos desempregados existentes no País?

Faço minhas as palavras do economista Eugénio Rosa, que divulgou estes dados, e que afirmou que «o 25 de Abril não se coaduna com tanto desemprego e com a miséria e o medo que gera. Não foi para isso que se fez o 25 de Abril».

A nossa sociedade actual, embora num patamar superior, está tão desigual e injusta como o era antes do 25 de Abril. O povo limita-se a votar – e cada vez menos, porque, com razão, não acredita nos políticos nem no sistema – e os que votam vão lá, na sua maioria, atrás de equívocas simpatias, por fidelidades absurdas, assim como quem apoio o seu clube de futebol.

Os ministros falam de nada – ou só de coisas boas que mais ninguém vê – mas nenhum disse, nem o senhor ministro das Finanças, que no 1.º trimestre de 2009, só as receitas do IRS (e do Imposto Único de Circulação) é que cresceram. Isto significa que só a maioria dos portugueses é que continua a ser sangrada, porque os impostos sobre o trabalho por conta de outrem sobem sempre, enquanto os outros descem.

Tal como acontecia nos tempos da ditadura, enquanto a fome alastra, as grandes empresas vêm os lucros subir em flecha. Veja-se o caso da Galp, que já foi entregue aos privados. Agitam-se bandeiras para dizer que os preços do gás pagos pelas famílias em Portugal vão descer, em média, 4,1% a partir de Junho de 2009, como isso representasse uma grande medida e também um grande benefício para os portugueses. Mas o que não se explica é a situação escandalosa que se verifica no mercado de gás em Portugal, pois as famílias portuguesas continuam a pagar preços muito superiores aos preços da União Europeia.

Não há censura, diz-se por aí, mas (e volto a socorrer-me de Eugénio Rosa) «esconde-se dos portugueses que os preços do gás natural em Portugal, sem impostos, ou seja, aqueles preços que revertem na sua totalidade para as empresas, e que constituem a fonte dos seus lucros, que são pagos também pelas famílias portuguesas, eram muito superiores aos preços médios da União Europeia. E a diferença para mais oscila entre 49,2% e 53,5. Entretanto, o preço do gás natural no mercado internacional, entre 1 de Janeiro de 2008 e 15 de Abril de 2009, passou de 22,96 euros por megawatt-hora para apenas 11,24 euros por megawatt-hora, ou seja, para cerca de metade».

Isto é: ao anunciar, com pompa e circunstância, uma redução média de apenas 4,1% nos preços do gás pagos pelas famílias portuguesas, quando os preços do gás, em Portugal, sem impostos – ou seja, à saída das empresas – são cerca de 49% superiores aos preços médios praticados na União Europeia, e quando, entre Janeiro de 2008 e Abril de 2009, o preço do gás no mercado internacional desceu 51%, o que se está a fazer, objectivamente, é satisfazer os interesses da GALP, dominada agora por grandes grupos estrangeiros (ENI, Sonangol) e portugueses (Amorim), que tem 90% do mercado de gás em Portugal, defendendo a manutenção dos seus elevados lucros. E isto torna-se mais escandaloso num altura de grave crise económica e quando as famílias portuguesas enfrentam dificuldades crescentes. Então, que democracia é esta, que assim espreme o pobre para encher o rico e, como faria qualquer regime fascista, esconde da população os dados que provam a sangria?

Repito, então, a minha afirmação da semana passada: «convictamente vos digo que já nada distingue estes “democratas” dos outros ditadores.»

Ou distingue. Um governante como Sócrates, com o seu passado e as suas trapalhadas, nunca seria ministro de Salazar. Nem, sequer, porteiro.

E está tudo dito.


Lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 29/04/2009.
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